Em livro sobre o Bendegó, historiador fala sobre a influência do meteorito na cultura

Em livro sobre o Bendegó, historiador fala sobre a influência do meteorito na cultura

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Em livro sobre o Bendegó, historiador fala sobre a influência do meteorito na cultura

O arquiteto e pesquisador Nireu Cavalcanti conta que a gigantesca pedra negra inspirou penteado e até um musical no final do século XIX.

O arquiteto e pesquisador Nireu Cavalcanti estuda a história do meteorito Bendegó e prepara livro sobre o assunto Foto: Leo Martins / Agência O Globo
O arquiteto e pesquisador Nireu Cavalcanti estuda a história do meteorito Bendegó e prepara livro sobre o assunto Foto: Leo Martins / Agência O Globo

RIO — Mesmo antes de a ciência comprovar a existência de meteoritos, um capitão do sertão baiano matou, de certa forma, a charada sobre o Bendegó. Em 1784, ao ser designado pelo governador da Bahia para que analisasse uma gigantesca pedra negra e brilhante na vila de Monte Santo, Bernardo Carvalho da Cunha descreveu o tal bloco, que até então parecia ser de metal precioso, como um “aborto da natureza”. Não era mesmo deste mundo. Naquela época, o “extraterrestre”, composto, na verdade, por ferro e níquel, era chamado na região por um nome indígena — Tapinhoacanga, que significa “oca roxa”. A denominação Bendegó caiu na boca do povo a partir de 1787, quando tentaram transportar a pedra e acabaram deixando que caísse num rio com esse nome. Mas a fama do meteorito se espalhou pelo mundo no século XIX, quando protagonizou uma verdadeira epopeia no caminho até o Rio de Janeiro. Até penteado — com um topete grande, que lembra o seu formato — ele inspirou.

E as curiosidades sobre o Bendegó , que virou um símbolo de resistência do Museu Nacional , não param aí, como conta o historiador e arquiteto Nireu Cavalcanti, que escreve um livro sobre a história do transporte do Bendegó e a influência do meteorito na cultura. A obra já tem um título — “Bendegó: o baiano sideral”. A ideia de mergulhar no passado (recente, que fique claro) de uma pedra de 5,3 toneladas com a idade da Terra (mais ou menos 4,5 bilhões de anos) que caiu na Bahia há cerca de mil séculos surgiu logo após Nireu ver o palacete da Quinta da Boa Vista em chamas.

Com o incêndio do Museu Nacional, em 2018, caí em prantos. Me perguntei: o que posso fazer para ajudar? Me lembrei que tinha o mapa original do Bendegó, que poderia recompor o acervo manuscrito — diz o historiador, que ganhou a raridade, de 1887, das mãos de Maria Helena de Carvalho Bellens Bezzi, já falecida, neta do engenheiro civil José Vicente de Carvalho Filho.

Ele atuava na ferrovia da Bahia e foi chamado, após a mobilização iniciada por Dom Pedro II em prol da vinda do Bendegó, a traçar a rota, de mais de 113 quilômetros, entre Monte Santo (numa área que hoje pertence ao município de Uauá) até o seu embarque numa estrada de ferro do povoado de Jacuricy.

— Ele foi de trem até Salvador, onde ficou em exposição, e depois veio de navio para o Rio, passando por Recife, onde se formaram filas para vê-lo. Era um sucesso nacional. O Bendegó virou símbolo de grandeza da nossa engenharia e do empenho do imperador com a cultura e a ciência — destaca Nireu, dizendo que o transporte foi liderado pela Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro e bancado por empresas e intelectuais, incluindo o Barão de Guahy, financista e político. O incêndio no Museu Nacional ;

Em pedaços

Na marcha pelo sertão, chegaram a usar 20 bois em alguns trechos, num percurso cheio de contratempos, com quedas do meteorito e quebras do carretão, uma engenhoca que deslizava sobre trilhos montados ao longo do trajeto. A viagem levou 126 dias! Tudo está registrado num relatório do vice-almirante José Carlos de Carvalho, o engenheiro à frente da comissão da Sociedade de Geografia para fazer o transporte. Já no Rio, em 1888, o Bendegó ficou exposto, antes de ser levado ao Museu Nacional, no Arsenal da Marinha, sendo visitado pela família imperial diversas vezes. Nireu conta que lá o meteorito foi cortado, com pedaços retirados para instituições do mundo inteiro. Até o Museu do Observatório do Vaticano tem uma amostra, e Dom Pedro II também recebeu uma.

Uma réplica de madeira, afirma o historiador, feita pelo escultor Rodolfo Bernardelli, fez parte da Exposição Universal de Paris de 1889 e continua na capital francesa. Para se ter uma ideia da dimensão tomada pelo primeiro e maior meteorito brasileiro, no mesmo ano estreava, no Teatro Recreio Dramático, na área da Praça Tiradentes, o musical “Revista O Bendegó”. Foi um estrondoso sucesso. Ele também virou gíria. Em 1894, políticos discutiam a transferência da capital para a região central do país. “A mudança da capital é um bendegó monstro”, tachou o deputado Furquim Werneck.

— Era como se um meteorito tivesse caído no Congresso — comenta Nireu, que vai restaurar o mapa de José Vicente de Carvalho Filho. Veja parte dos 1.500 itens do acervo do Museu Nacional já recuperados Foto Anterior Proxima Foto

Histórias de outro mundo

Topete: Na virada do século XIX, era moda no Nordeste um penteado “à bendegó”. Em 1902, um jornal de Recife descrevia um ladrão fugitivo como “moreno, dentadura perfeita e uma cabeleira baixa à bendegó”. Também havia anúncios de “pentes à bendegó” em prata e de tartaruga.

Musical: A “Revista O Bendegó” estreou em 1889 no Teatro Recreio Dramático com a companhia de Dias Braga. De dois consagrados escritores (Oscar Veloso Paranhos Pederneira e Argemiro Gabriel de Figueiredo Coimbra), a peça, após cem apresentações, foi levada para várias capitais do país. As composições são do maestro de orquestra F. G. de Carvalho.

Peso-pesado: Não à toa ele virou gíria: o doutor em geologia Wilton de Carvalho, autor de uma tese sobre o Bendegó, diz que o meteorito é o 16º maior encontrado na Terra. A astrônoma Maria Elizabeth Zucolotto, do Museu Nacional, explica que as primeiras teses científicas sobre essas pedras extraterrestres surgiram só dez anos depois que o Bendegó foi revelado, em 1784.

Bernardino da Motta Botelho: Era o nome do fazendeiro que encontrou a pedra. Mas, na placa no museu, o achado é atribuído a Joaquim da Motta Botelho.

Foto: Leo Martins / Agência O Globo

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About Adailton Santana

Adailton Santana é Radialista profissional, com o Registro RPR número 8204/BA. Exerce a profissão há mais de 15 anos e é proprietário do Portal Uauá. Site que, há 09 anos, leva para o mundo, notícias e informações locais e regionais, tornando-se o site de maior referencia e o mais acessado na cidade de Uauá e região.