Muriçocas

Uma pergunta ronda a minha cabeça: como as muriçocas sabem onde ficam nossas orelhas? O que elas guardam de tão especial? É uma adega com sangue de primeira? Se elas apenas picassem, vá lá. Mas não. Elas precisam ficar zumbindo a noite inteira no seu ouvido?
Muriçoca é o único inseto que a gente não tem nojo de matar com a mão. Muito pelo contrário. A gente se sente herói quando consegue pegar uma e vir, na palma, ela esmagada com o sangue que outrora fora seu. Não tem inseticida, sandália, vassoura, nada é melhor do que matar uma muriçoca com a mão.
Você está morrendo de sono, a muriçoca te acorda da pior maneira e, com sangue nos olhos, você até esquece que o sangue, que está na bundinha dela, vai manchar a parede ou o lençol.
É neste inseto que eu exercito todo o meu sadismo. Sinto prazer em matá-las. Adoro vê-las morrendo eletrocutadas por aquelas lâmpadas azuis. Você consegue enxergar ela se aproximando e, sem dó nem piedade: dziii. Sai até faísca, com direito a fumacinha.
Mas nada substitui a raquete elétrica. É uma das maiores invenções balísticas desde a Segunda Guerra Mundial. Ela é leve, tem botão de liga e desliga, possui cores variadas e sai por uma pechincha em qualquer camelô.
Com a raquete elétrica, você nem precisa levantar da cama. A muriçoca está ao seu lado, alegre e serelepe, praticamente um bamby saltitante na floresta encantada, procurando sua orelha. Você finge que está dormindo, basta esticar o braço e dziii. Dependendo do momento, você pode até dar aquela risada de bruxo no fim.

Mas por que ele é o único inseto que a gente tem vontade de fazer justiça com as próprias mãos? Ódio. A barata é morta por nojo. A gente não tem ódio de mosca, tem nojo. Muriçoca a gente mata com a mão porque tem ódio.
E tem mais: elas nunca aparecem no frio. Quando a gente pode se cobrir por inteiro, elas não dão as caras. Mas quando está aquele calor de rachar, em que poderíamos dormir nus, de janela aberta, zium, zum, bziiiii…
E quando você vai acampar com aquela garota que sempre sonhou? Você, ela, a fogueira, a lua e, claro, a família dos borrachudos. Vocês dois passaram tanto repelente que sentem que estão beijando um tubo de inseticida. Daqueles sem CFC.
E existem várias espécies: maruim, pernilongos, aedes aegypti. A primeira tem uma picada que dói e a última pode até matar. Por mim, tolerância zero com os mosquitos. Que se dane o Greenpeace, que se danem os sapos, lagartixas e aranhas. Eu quero dormir.
Durma bem.

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